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Dao De Jing - Capítulo 36

O que está em vias de contrair,
Deve ter se expandido
O que está em vias de enfraquecer,
Deve ter se fortalecido
O que está em vias de decair,
Deve ter florescido
O que está em vias de obter,
Deve haver doado.
Isso é ter visão clara.
O flexível vence o rígido, o firme vence o forte.
Assim como os peixes não devem abandonar a profundidade das águas,
As armas refinadas do reino não devem ser expostas.

Mutações, Peixes e Armas Refinadas

“Quando algo está no ápice, se transforma em seu oposto”. Esta é uma lei que rege as constantes mutações do Yin/Yang e mantém a vida no Universo.

Na natureza, ela é auto evidente. Podemos observá-la nas fases da lua, por exemplo: ao chegar em sua plenitude, a lua entra na fase minguante e depois da lua nova surge a fase crescente. Um outro caso é o das estações do ano: após a escassez no inverno, vem a fartura da primavera e após o florescimento do verão, vem o recolhimento do outono.

Atingir o ponto de mutação e então renovar é seguir o fluxo natural, quando os acontecimentos fluem sem desgaste.

Na prática das artes corporais chinesas, as mutações dos movimentos são fundamentais para circulação do Sangue e dos Sopros (qi). No entanto, quando os movimentos se projetam para além ou ficam aquém da sua plenitude, perde-se o momento certo para a mutação e o resultado não é benéfico.

Quando isso acontece, os mestres das artes corporais costumam advertir que o movimento não chegou no seu lugar, sendo “lugar” o ponto de mutação natural onde um novo movimento se inicia. O praticante que executa seus movimentos mecanicamente, sem clareza do que está fazendo é aquele que mais comete esta falta.

Treinar com consciência e perseverança, eleva o nível da prática que realizamos. Além da mutação, a fusão dos opostos confere uma qualidade duradoura para a prática, mas também para a vida do praticante. Dizem os mestres das artes corporais que é necessário mil marteladas e centenas de refinações para forjar esta qualidade.

A qualidade da flexibilidade resulta da fusão do fraco com o forte e a qualidade da firmeza ocorre da fusão do suave com o rígido. A flexibilidade transcende e harmoniza o fraco e o forte, limitando os excessos do uso da força no forte e possibilitando o uso eficaz da força existente no fraco. A firmeza transcende e harmoniza o rígido e o suave, tornando o rígido maleável e o suave penetrante.

As duas linhas finais do capítulo são metafóricas:

Na primeira, “Assim como os peixes não devem abandonar a profundidade das águas”, a palavra de destaque é “peixe”, cuja pronúncia em chinês (yú) tem o mesmo som de “sobra, a mais, excedente”. Essa semelhança fonética levou o peixe a se tornar um símbolo de prosperidade, de abundância na China. No contexto do poema, podemos entender que ele simboliza a vitalidade que está na profundidade das águas (região do baixo ventre onde se localiza o órgão do Rim do elemento Água). Assim, a vitalidade que sobra, que excede, não deve ser desperdiçada, e sim mantida na região do Rim.

Na segunda, “As armas refinadas do reino não devem ser expostas”, a referência é o Órgão do Pulmão, cujo elemento é o Metal. Uma de suas funções é o de aglutinar a essência dos alimentos terrestres recebidos do Órgão Baço e a essência do alimento celeste assimilado pelo nariz e pela pele, produzindo os sopros de defesa que difunde para todo corpo. As armas refinadas podem ser associadas por metáfora ao sopro defensivo elaborado pelo Pulmão que tem como objetivo proteger o reino e que não deve ser exposto.