Abaixo do Supremo, tem os que sabem de sua existência
A seguir vem aqueles que o ama e admira
E depois aqueles que o temem e desprezam
Confiança que não é plena resulta em desconfiança
Usar de poucas e preciosas palavras,
E o trabalho flui e se realiza
E o povo sempre dirá: fomos nós que fizemos
Na década de 60 assisti ao filme de uma entrevista do analista Carl Gustav Jung gravada em 1959 pela televisão inglesa BBC[i]. Na ocasião Jung estava com 84 anos. Ele faleceu em 1961 aos 86 anos.
Numa passagem dessa entrevista o jornalista, sabedor de que ele era filho de um pastor protestante, e que, quando pequeno, frequentava a igreja aos domingos, indagou:
“E o senhor acredita em Deus agora?” e Jung, surpreendido com a pergunta, após breve silêncio disse: “Agora? Difícil responder. Eu sei. Eu não preciso acreditar, eu sei”.
Nessas palavras do Jung vislumbrei a confiança plena que vem do saber e não da crença.
Esse capítulo do Dao Dejing, se inicia com a seguinte frase:
Abaixo do Supremo, tem os que sabem de sua existência
Aqui diz que, mesmo estando nesse mundo inferior, tem aqueles que sabem da existência do Supremo, pessoas que sabem, não precisam acreditar.
Nas artes terapêuticas chinesas, Huang Di (2698–2598 a.C.), o lendário Imperador Amarelo considerado o pai da medicina tradicional chinesa e todos os que o seguiram no desenvolvimento desse conhecimento, sabem dos processos e das paisagens internas do corpo. Não é crença é sabedoria. Sabiam da vida em toda sua maravilhosa extensão por meio de um contato direto e não intelectual. O contato direto é feito pelo sentir. O sentir nos leva ao sentido das coisas, e saber do sentido das coisas refinam o sentir. Por isso que em todas as artes terapêuticas chinesas: exercícios, acupuntura, massagens, etc., é fundamental sentir.
Às vezes o saber que vem do sentir é desvirtuado pelos pensamentos. Os pensamentos nos impedem de sentir e nos levam às ilusões que transformam o saber em crença. Não somos mais responsáveis pelo que nos acontece e sim atribuímos a responsabilidade à fatores externos. É o que acontece quando se mistifica uma prática atribuindo a ele resultados “milagrosos”, ou mesmo tem se medo ou desprezo pois a prática é desconhecida e ameaça as crenças vigentes.
Por isso Laozi diz que:
A seguir vem aqueles que o ama e admira
E depois aqueles que o temem e desprezam
A confiança plena vem do “saber”. Para saber é preciso praticar e sentir, isso significa praticar com o Coração. Assim, sem alarde, o praticante torna-se responsável e o trabalho flui e se realiza. E dessa forma quando os bons resultados são obtidos eles dirão: nós conseguimos!
Confiança que não é plena resulta em desconfiança
Usar de poucas e preciosas palavras,
E o trabalho flui e se realizaE o povo sempre dirá: fomos nós que fizemos
Capítulo 18
Quando se esquece do Caminho (Dao),
aparece os que pregam o senso do humano (Ren) e a ordem moral.
Quando surge a inteligência,
aparece a hipocrisia.
Quando as seis relações familiares não estão em harmonia,
aparece a piedade filial e o amor paternal.
Em um país caótico e em desordem,
aparecem os ministros leais.
RESGATAR O ESSENCIAL
Neste capítulo Laozi menciona de forma explícita os principais valores que Confúcio prega: as virtudes humanas (ren), a sinceridade, a piedade filial (xiao) e a lealdade. Não é uma crítica ao pensamento de Confúcio, visto assim por muitos estudiosos, mas sim como uma constatação de que esse pensamento inspira a práxis necessária para resgatar qualidades que são naturais ao ser humano.
Confúcio, em sua obra Daxue (Grande Estudo) diz que a harmonia de todo o Universo começa no Coração do Ser Humano:
“É examinando as coisas que o conhecimento de si próprio atinge a sua máxima expansão. Uma vez expandido o conhecimento, a intenção torna-se autêntica. Uma vez autêntica a intenção, o Coração está no caminho certo. Com o Coração no caminho certo, é que se aperfeiçoa a si mesmo. É aperfeiçoando a si mesmo que se harmoniza a própria família. É harmonizando a própria família que se ordena o próprio país. E é quando os países estão ordenados que a grande paz se realiza em todo o Universo.”
O pensamento acima diz que a harmonia está mais perto do que a gente imagina: está dentro de nós, não fora. Buscá-la é realizar as virtudes humanas (ren) em nós, é viver de forma plena a nossa natureza humana em harmonia com a natureza do Universo.
Mas, como diz Confúcio, é preciso examinar a fundo as questões apresentadas; o perigo de aceitar superficialmente o que é dito é de não expandir a consciência de si mesmo. Mesmo as palavras de Confúcio, se forem aceitas e replicadas de forma passiva e sem reflexão, podem tornar-se uma tradição rígida e levar à deterioração.
Capítulo 19
Renuncie à santidade.
Deixe de lado a sabedoria.
E todos serão cem vezes mais beneficiados.
Renuncie à benevolência.
Deixe de lado a justiça humana.
E as pessoas voltarão a ter respeito e amor aos que vieram antes.
Renuncie à sua engenhosidade.
Deixe de lado a ganância.
E ladrões e assaltantes deixarão de existir.
Para realizar essas três coisas, palavras e cultura não são suficientes.
Portanto retorne ao que é confiável e durável:
ser autêntico, abraçar o simples, diminuir o egoísmo e os desejos.
Retorno à inocência
O tempo passou e hoje o mundo está bem diferente. Vivemos uma globalização devido à revolução da tecnologia. É nesse momento que a inocência e espontaneidade retornam e serão bem-vindos.
Laozi neste capítulo nos convida a pôr de lado as regras das culturas estabelecidas, que geram tantos conflitos entre si, e refletir sobre os valores que tratam da essência do ser humano. Ou seja, uma cultura sem cultura, universal, ampla e libertadora que resgate a inocência e a simplicidade.
Na práxis da vida diária, cultivar o retorno à simplicidade. É um processo que demanda atenção e discernimento. Largar a bagagem e as coisas acumuladas no nível material, emocional e mental e que não servem mais e ficar com a essência do que foi vivido. Como Buda disse: você adquire ou constrói um barco para atravessar o rio para a outra margem; depois de chegar à outra margem, não precisa mais carregar o barco para seguir em frente.
É nesse momento que a inocência e espontaneidade retornam e serão bem-vindos.
Capítulo 20
Renuncie ao estudo,
e não existirão mais preocupações.
Qual é a distância entre o concordar e o reprovar?
Qual é a distinção entre o bonito e o feio?
Aquilo que as pessoas temem, poderia não se temer?
Vasto, indiferenciado e sem limite!
A multidão eufórica se agita com prazer,
como em uma festa na prisão.
Ou como se subissem as montanhas para festejar na primavera.
Eu sozinho, permaneço quieto sem festejar.
Como bebê que ainda não sabe como sorrir,
desamparado, sem ter para onde ir.
Todos parecem ter em abundância.
Eu nada possuo.
Sou uma pessoa com coração ingênuo.
Todos vivem lúcidos.
Eu, solitário, pareço confuso.
Todos são espertos e tem opinião própria.
Eu, solitário, sou ignorante sem opinião.
Plácido como a vastidão do mar.
Fluindo como o vento que sopra sem cessar.
Todos os homens fazem-se úteis.
Eu, solitário, sou tosco e sem utilidade.
Sou diferente.
Valorizo o alimento da Mãe.
Alimentar-se da Mãe
Os chineses não são adeptos ao acúmulo de conhecimento. Para eles o conhecimento só tem sentido se estiver orientando uma ação e se tem relação com a vida e o movimento. O excesso de conhecimento se torna uma carga para a mente e só atrapalha as decisões a serem tomadas na vida. Por exemplo, os médicos tradicionais chineses utilizam a teoria da MTC como uma referência, mais importante do que a teoria, é saber aplicá-la através de um pensamento vivo que se põe à escuta e se desenvolve conforme a rede de relações que se apresenta no momento.
Essa escuta, que leva ao pensamento justo, depende de um Coração vazio, sem preconceitos e medos. Esta não é uma habilidade acadêmica que se aprende estudando na escola, mas se aprende com a vivência e observação constante de nossa natureza humana. As potencialidades da natureza humana, não são encontradas na superfície, e sim na profundidade de nosso ser.
A medicina tradicional chinesa se refere ao alimento da Mãe como a essência pré-natal concedida ao vivente no momento da concepção pelos pais e pelo Céu, a Terra e todo universo. Esta essência encontra-se depositado na profundidade do nosso corpo, na região do baixo ventre. Na alquimia chinesa essa região, é chamada de Campo de Cinábrio (Dantian). Um cordão umbilical invisível conectado à essa região e atado à Mãe, faz com que a essência pré-natal alimente, continuamente, o nosso corpo, alma e espírito.
Para buscar esse tesouro nas profundezas do ser e alimentar-se da Mãe, é preciso renunciar ao excesso de prazeres e gozos mundanos. Ao renunciar conscientemente aos divertimentos e prazeres externos acontece a verdadeira felicidade de um encontro com o seu mundo interno, como se fosse um bebê que não precisa ir à lugar nenhum pois já está acolhido no ventre da Mãe.
As pessoas querem ser úteis, buscam a fama e o reconhecimento fora de si mesmos, tem medo de ser diferente, de não ser aceito pelos outros. Mas o verdadeiro reconhecimento está na nossa origem, na profundidade de nosso ser. A busca interna é realizada quando estamos sozinhos e quando não temos utilidade no mundo externo.
Capítulo 21
A suprema virtude da abertura é revelada quando se segue o Dao.
O Dao é como um sonho, difuso, vago e fugidio.
Vago e fugidio! No seu interior tem imagem.
Vago e fugidio! No seu interior tem forma.
Profundidade turva e obscura! No seu interior existe essência refinada.
No interior dessa essência genuína, reside a natureza original.
Desde a antiguidade até hoje, seu nome, sempre lembrado,
rege o surgimento e desaparecimento dos seres.
Como posso saber da origem da criação?
De acordo com isso.
A Abertura do Dao
Há uma atmosfera de grande virtude nas aberturas, orifícios, brechas; por onde podemos entrever outra dimensão das coisas. Uma “abertura” é um acontecimento no plano do invisível e sutil.
Mircea Eliade (1907-1986), filósofo e historiador das religiões, diz em seu livro O Sagrado e o Profano[i]
Quando o sagrado se manifesta por uma hierofania qualquer, não só há rotura na homogeneidade do espaço, como também revelação de uma realidade absoluta, que se opõe à não realidade da imensa extensão envolvente.
Na natureza encontramos exemplos de aberturas, roturas que rompem a mesmice do espaço, como: um oásis no deserto, uma gruta em uma montanha maciça, os espaços por entre os galhos de uma copa de árvore etc. Nos seres humanos uma abertura pode se dar no fluxo compulsivo dos pensamentos, ou nos hábitos emocionais, físicos ou mentais rompendo um ciclo vicioso.
Além disso, no espaço físico de nosso corpo existem infinitas aberturas por onde o interno se comunica com o externo. A medicina tradicional chinesa ao longo de milênios mapeou 365 orifícios pertencentes aos meridianos que fluem no corpo, espalhados pela sua superfície. Conhecidos como “pontos de acupuntura” no ocidente, eles recebem o nome de qi qiao (orifício ou abertura do qi) na literatura médica chinesa. Além de serem as referências para as rotas de circulação do qi e do sangue, esses orifícios, invisíveis, refletem as mutações fisiológicas e patológicas internas e transmitem os estímulos externos para o interno. A troca de qi entre o corpo humano e a natureza é efetuada por seu intermédio.
A suprema virtude da abertura é revelada quando se segue o Dao.
Para seguir o Dao é preciso um Coração vazio. Um Coração que não seja preenchido pelas coisas e sim um Coração, que estando vazio, possa envolver e abranger todas as coisas. Ser preenchido leva ao apego, ser abrangente é ter consciência sem tomar posse.
Esse Coração abrangente possui um olhar abrangente, amplo. Vê através de um olho especial e oculto: o terceiro olho. Esse olho está no centro do cérebro, na região da glândula pineal, um pequeno ventrículo bem no meio da cabeça. A sua abertura fica na fronte acima do ponto médio entre as sobrancelhas, no meio dos dois olhos físicos. Na acupuntura este local é chamado de Tianmu (Olho Celeste) um qi qiao (acuponto) que é extra, por não pertencer a nenhum meridiano.
O Dao é como um sonho, difuso, vago e fugidio.
Vago e fugidio! No seu interior tem imagem.
Vago e fugidio! No seu interior tem forma.
Profundidade turva e obscura! No seu interior existe essência refinada.
No interior dessa essência genuína, reside a natureza original.
O mundo interno do ser humano é vago e fugidio como o Dao. Somente através do brilho do olhar do Tianmu, é possível vislumbrar as paisagens internas. Como uma abertura no céu, sua luz é capaz de penetrar e iluminar, dentro da escuridão do baixo ventre, a essência que resplandece na profundidade turva e escura.
Cultivar um Coração vazio, abrir o Tianmu e integrar corpo, alma e espírito no interno e ser humano e natureza no externo. Tudo num só olhar.
Capítulo 22
No modesto está a plenitude.
No torto está o reto.
No esvaziar há o preencher.
O usado contém o novo.
O pouco concentra, e o muito desperdiça.
Por isso, o sábio abraça a unidade, e é modelo para o mundo.
Não se exibe por isso brilha.
Não se impõe por isso fica em evidência.
Não faz alarde por isso tem mérito.
Não se vangloria por isso governa.
Não disputa por isso nada abaixo do céu disputa com ele.
O dito antigo: no modesto está a plenitude.
São por acaso palavras vazias?
Na plenitude, retorna-se ao Dao (Caminho).
Abraçar a Dualidade
Dao é a unidade suprema, significa Caminho ou Via, o Caminho para cada ser é único, e cada ser é único também. Mas o Caminho só existe ao se caminhar por ela, sem andar o Caminho não existe. Porém o movimento gera dualidade, polos opostos, mas estes ao invés de se repelirem, se relacionam e se complementam. É como se, depois de terem sido separados, buscam reconstituir a unidade perdida.
A relação entre opostos é uma lei imutável que ocorre em todos os níveis na natureza. Este conhecimento está contidosímbolo do Taiji (polo extremo) que une a polaridade Yin/Yang em um círculo que representa a unidade. Podemos notar que o Yin tem uma marca do Yang, um vazio que deve ser preenchido pelo Yang; e o Yang por sua vez tem a marca deixada pelo Yin um espaço a ser preenchido pelo Yin.
Neste capítulo Laozi enfatiza que cada coisa, contem em si, o seu oposto, e que busca nele a unidade perdida.
Os seres buscam a unidade no seu oposto, pois ao alcançar a unidade, mesmo que breve, os conflitos esvanecem e tem-se uma profunda paz.
O segredo da paz nas relações é o de realizar a própria unidade interna. Como diz Laozi neste capítulo “O sábio abraça a unidade, e é modelo para o mundo”.
Capítulo 23
Falar pouco é natural
Na natureza um vendaval não sopra a manhã toda
E uma tempestade não dura um dia inteiro.
A quem se deve isso? Ao Céu e Terra.
Se as coisas no Céu e Terra, em seu nível superior, não persiste
Como pode as ações do humano persistir?
Os que seguem o Dao,
agem em consonância com o Dao
Os que seguem a Virtude,
agem com virtude.
Os que se perderam do Dao e da Virtude,
agem sem consonância com o Dao e a Virtude.
Os que seguem no Dao enaltecem o Dao
Os que seguem a Virtude enaltecem a Virtude
Os que se perderam enaltecem a perda.
Quando a fé não é total, não há fé.
Falar Pouco é Natural
Falar é uma forma de expressar o que está no Coração. Na medicina tradicional chinesa o Órgão Coração pertence ao elemento Fogo e suas principais funções são: abriga a consciência, controla a mente e os pensamentos, e se abre na língua. Estas funções do Coração mostram a sua conexão com a fala.
Uma pessoa com o Coração cheio e com excesso de fogo tende a falar muito. Isso não é natural, é um desequilíbrio. O natural é um Coração sereno que se manifesta falando daquilo na qual aplicou o seu Coração e que é essencial naquele momento.
Falar muito desgasta o sopro vital (qi) e a vitalidade, dispersa a atenção e nos desvia do Caminho (Dao). Deixando de falar o essencial, deixamos de receber a resposta reveladora, deixamos de despertar a consciência e deixamos de iniciar uma ação transformadora.
Falar e fazer o essencial é muito simples, pois o essencial é natural e espontâneo. O que não é essencial não persiste. Seguir o Caminho com Virtude é simples e essencial. Perder o Caminho e a Virtude é ser arrastado pelo não essencial.
O essencial nos dá a fé e a confiança total. No não essencial não podemos confiar. Quando fazemos o essencial estamos protegidos pelo Dao. Os acidentes acontecem no não essencial.
As manifestações de um Coração puro enaltecem o Caminho e a Virtude. As manifestações de um Coração perdido enaltecem a perda.
Capítulo 24
Aquele que se sustenta nas pontas dos pés não fica estável
Aquele que avança a passos largos não vai longe
Aquele que se exibe não brilha
Aquele que é cheio de si não é respeitado
Aquele que se vangloria não tem o mérito
Aquele que é arrogante não evolui
No Dao estas coisas
são supérfluas como sobras de comida,
que as pessoas desprezam.
Por isso os que seguem o Dao
Não agem assim.
Com o Coração nos Pés
Ficar na “ponta do pé” é uma metáfora para descrever aquelas pessoas que não colocam o “pé no chão”. Ficar na ponta do pé dá a ideia de suspensão e colocar o pé no chão dá ideia de enraizamento.
Os pés são integrados a todo corpo através do fluxo do sopro vital (qi) que corre por caminhos chamados de Meridianos. Três meridianos yang relativos às Vísceras do Estômago, Bexiga e Vesícula se iniciam na face, correm ao longo do corpo e terminam no 2°, 4° e 5° artelhos dos pés respectivamente.
Três meridianos yin pertencentes ao Órgão do Baço (medial do artelho grande), Rim (sola do pé) e Fígado (lateral do artelho grande) correm pelo aspecto medial dos membros inferiores e penetram no tórax para se unir com os respectivos campos energéticos dos Órgãos aos quais pertencem.
Portanto os campos dos Órgãos e Vísceras ligados aos pés necessitam da estabilidade e potência da Terra para realizar bem a sua função. Estando na “ponta dos pés”, não há contato dos pés com a potência da Terra e isto prejudica não só o equilíbrio do corpo físico como também a função dos campos energéticos dos Órgãos e Vísceras correspondentes.
Na natureza, a ascensão da potência da Terra depende do descenso da emanação celeste, se o Céu não desce a Terra não sobe. Acontece da mesma forma no interior de nosso corpo: a emanação celeste deve descender através do campo do Coração para se conectar-se com os pés enraizando-os.
A metáfora “a passos largos não se avança”, está relacionado com um Coração abarrotado e ansioso que faz com que os passos sejam mais largos do que as pernas podem dar.
É como uma carruagem cujo coche é puxado por um cavalo que corre disparado, galopando sem o devido controle do cocheiro. O cavalo representa as emoções. O cocheiro ausente representa o Coração (mente) que embriagado com as coisas mundanas não consegue controlar o cavalo. O coche é o nosso corpo físico que sofre as consequências e pode se desmantelar.
Os excessos nas atitudes e ações humanas são como as sobras de comida desprezadas e desperdiçadas, que resultam em desvios no Caminho (Dao).
Capítulo 25
Há algo no Nada indistinto e íntegro,
anterior ao nascimento do Céu e Terra.
Silencioso e invisível, independente e imutável.
Move em círculos sem cessar.
Pode ser considerado a Mãe da miríade de coisas.
Não sei o seu nome .
Ao ter de dar um nome, chamo-o Dao.
Ao ter de descrevê-lo digo grandioso.
Grandioso significa expandir.
Expandir significa ir longe.
Ir longe significa regressar.
Por isso o Dao é grande,
o Céu é grande,
a Terra é grande,
o Ser Humano é grande.
No universo existem quatro grandes,
e o Ser Humano é um deles.
O Ser Humano segue as leis da Terra,
a Terra segue as leis do Céu,
o Céu segue o Dao,
o Dao segue a si mesmo, o natural.
O Ser Humano é Grande
Existe algo, diz Laozi neste capítulo, no qual estamos imersos que, imperceptível, interpenetra a densidade de nosso corpo e envolve, silenciosamente, a tudo que existe no universo. Este algo é como um Vazio que parece não ter nada, mas contêm todos os seres que lutam para vir à existência. Este Nada que gera e transforma não foi gerado e nem se transforma, é o absoluto de onde surge o Céu, a Terra e o Ser Humano. Seu movimento expande em círculos, numa grande espiral ascendente que vai longe e, ao ir longe, encontra a sua origem. Este algo é chamado de Dao (Caminho) e ele é grandioso.
O Ser Humano, revela Laozi, é um dos grandes colocado em paralelo com o Céu, a Terra e o Dao. Significa que o ser humano possui todos os elementos que constituem o Céu, a Terra e o Dao.
Portanto existem degraus a serem escalados para se chegar ao Dao, não dá para pular etapas. Com humildade deve-se primeiro seguir as leis da terra, ao qual estamos sujeitos. Por termos uma forma, um corpo físico, estamos sujeitos às forças de gravidade e atração, à limitação dos movimentos, à dependência da nutrição pelos alimentos e pelo ar, além de necessidades emocionais e mentais.
Quando seguimos as leis da Terra, transcendemos e podemos junto com ela seguir as leis do Céu que são as quatro estações e a alternância da luz e da escuridão. O Céu segue o Dao e junto com o Céu também seguimos o Dao. E o Dao nada mais é do que ser natural.
É um encadeamento. Se a pessoa não segue as leis da Terra, não consegue seguir as leis do Céu e nem do Dao.
Da miríade de seres, o Ser Humano é o que tem a possibilidade de estar pronto para a transcendência.
Capítulo 26
O pesado é a raiz do leve
O quieto é o senhor do inquieto
Portanto o sábio em sua marcha diária,
não perde de vista a sua bagagem.
Ele permanece leve e desapegado,
mesmo que haja coisas deslumbrantes para se ver.
Como pode o dono de muitos recursos,
agir levianamente ante ao mundo?
Ser leviano perde a raiz.
Ficar agitado perde o governo.
A Sustentável Leveza do Ser
O pesado é a raiz do leve
O quieto é o senhor do inquieto.
Podemos observar estas palavras na natureza: a terra sólida e estável permite a leveza dos movimentos das plantas, das águas e dos seres que nela se enraízam e se elevam para o céu.
Fazendo uma analogia com a natureza humana, o corpo físico é “pesado” e o espírito é “leve”. Às vezes, na busca de espiritualidade, consideramos o corpo físico um fardo que nos atrapalha e tendemos a ignorá-lo. No entanto, isto é um equivoco, pois o corpo abriga o espírito, por isso durante a nossa jornada, na terra, não podemos perder o nosso corpo de vista. Quando cuidamos devidamente do nosso corpo, o espírito tem onde se enraizar. Sem o corpo como substrato sólido e estável, o espírito não tem como se enraizar, fica inquieto, agitado e vai embora, e na ausência dele o corpo fica muito mais pesado.
Também na medicina tradicional chinesa o “pesado” e o “leve” interagem e se complementam como o yin/yang. O “pesado” se dissolve através de um movimento yang ascendente. O leve se condensa através de um movimento yin descendente.
No nosso corpo, de forma geral, as funções dos órgãos localizados abaixo do diafragma (Baço, Rim e Fígado) são os responsáveis por produzir e transformar a essência (inata e adquirida) e a fazer chegar às regiões superiores em um movimento ascendente. Na região superior, os órgãos acima do diafragma (Coração, Pericárdio e Pulmão) são os responsáveis de receber essa essência pura que ascendeu para condensá-la com o ar celeste respirado e difundi-la para todos os órgãos e vísceras abaixo deles, em um movimento descendente. O movimento de “dissolver e ascender” e “condensar e descender” parece ser simples, mas não é, devido a outros tipos de energias que vem do externo e pode afetar esta movimentação. Isto depende não só da qualidade do que vem do externo, mas também da nossa capacidade em assimilá-los e transformá-los em energias sutis que possam alimentar e cultivar o espírito. Para isso devemos ficar desapegados e não nos projetar nos acontecimentos externos. Dessa forma, o mundo externo não perde a sua abundância nem a riqueza de impressões e sons, porém deixa de nos dominar e, então, passamos a poder contemplá-la.
Os sábios como Laozi, mestres enraizados nos seus conhecimentos, são pessoas simples e naturais, e por isso, agem com leveza; a responsabilidade não lhes pesa.
Capitulo 27
A marcha da benevolência não deixa rastro.
A fala da benevolência não deixa margem para críticas.
A conta da benevolência não necessita de cálculos.
O fecho da benevolência não precisa de ferrolho e não se consegue abrir.
A benevolência ata sem precisar de cordas e não se consegue desatar.
Por isso, o sábio é constante em sua benevolência,
salva as pessoas e não desiste de ninguém.
Sempre benevolente resgata as coisas
e não descarta nada.
A isso se diz herdar a luz.
Por isso, aquele que é benevolente é mestre daquele que não é.
E aquele que não é benevolente é desígnio para aquele que é.
Não valorizar seu mestre ou não amar o seu desígnio,
mesmo com muito conhecimento,
é estar em grande desorientação.
A isso tudo se chama a essência do mistério.
Ser Benevolente
A natureza é o grande mestre para os chineses, deve-se contemplá-la e aprender com ela.
A benevolência da natureza opera no invisível, a sua marcha não tem rota definida ou rastros a se seguir, simplesmente ela percorre a rota indefinida sem deixar rastro.
Nas estações da primavera e verão, a sua produção não precisa ser contabilizada. No outono e inverno a sua amarração e fechamento não tem como querer abrir ou desatar.
Nas artes corporais chinesas os sábios e mestres são constantes em sua benevolência. Eles são os representantes do conhecimento milenar e tem ligação com o fio de ouro do conhecimento tradicional. Na presença de um discípulo com a mente aberta para receber o novo, o mestre se torna um canal que sintoniza a sutil faixa de conhecimentos milenares e o conhecimento flui por esse elo estabelecido com o discípulo.
Quando se pratica com o coração benevolente, tudo é cuidado e visto sem abandonar e nem esquecer nenhuma parte. Um dos princípios das artes corporais diz: “Quando uma parte do corpo se move, todo corpo se move. Quando uma parte está parada todo corpo está parado”. As partes do corpo que estão bem ensinam e ajudam as partes que não estão bem, sendo que estes são desígnios dos primeiros. “Não valorizar seu mestre ou não amar o seu desígnio” mostra uma grande desorientação do Coração, como diz o Daodejing.
Em todas as artes corporais chinesas deve-se valorizar as possibilidades do praticante ao invés das impossibilidades, as potencialidades saudáveis ao invés das fraquezas e debilidades. Ao se valorizá-las permite-se que elas, as possibilidades e as potencialidades saudáveis, em sua atitude benevolente inata, ensinem e sirvam de modelo para as partes que estão necessitadas e fracas.
O amor é a força para ensinar e transmitir, e o respeito e o reconhecimento são os sentimentos para ser o receptor. Quando estamos centrados, percebemos que o aprender e ensinar (transmitir e receber) é um só, é simultâneo, pois quando ensinamos, aprendemos, e quando aprendemos também estamos ensinando.
Isto é maravilhoso!
Poema Cap28
Saiba da potência em ti.
Resguarda a suavidade em ti.
Seja uma nascente abaixo do céu.
Ser nascente abaixo do céu.
É ficar unido à Virtude constante.
É retornar ao estado de recém-nascido.
Veja a luz em ti.
Sinta o escuro em ti.
Seja um exemplo abaixo do céu.
Ser exemplo abaixo do céu,
É ficar unido à virtude constante.
É retornar ao estado de Vacuidade.
Conheça a glória em ti.
Conserve a humildade em ti.
Seja um vale abaixo do céu.
Ser um vale abaixo do céu.
É ser pleno de virtude constante.
É retornar à simplicidade da madeira bruta.
A madeira bruta esculpida serve de utensílio.
As pessoas fazem uso dos utensílios para realizar obras.
Mas o Sábio é a madeira bruta que sem ser esculpida realiza a Grande Obra.
Madeira Bruta
A força interna (nei jing), é uma força potente e suave que brota de uma fonte interna. À semelhança da nascente de água que brota do fundo da terra e suavemente se avoluma transpondo os obstáculos até chegar ao mar, assim é também o do recém-nascido cuja potência suave o faz crescer e desenvolver até a maturidade. A mensagem aqui é de não nos separarmos da virtude na qual a força potente coexiste com a suavidade, pois a força sozinha é destrutiva e a suavidade sozinha não se desenvolve.
A luz e a escuridão também coexistem em nossa existência terrena. Nosso espírito é leve e luminoso e coexiste com a nossa matéria que é denso e escuro. No plano terrestre o iluminado resguarda em si o escuro, assim como o espírito resguarda em si o corpo. O espírito deve cuidar do corpo pois é onde ele habita. O corpo deve ser nutrido, deve fazer a sua higiene e ser mantido em funcionamento para que se possa aperfeiçoar o espírito, a Grande Obra.
Levanto a cabeça para contemplo a glória celeste, e abaixo a cabeça para retornar à minha terra natal e à simplicidade.
Capitulo 29
Desejar possuir o que está abaixo do Céu, e agir para isso,
é certo que não se pode conseguir.
O que está abaixo do Céu é sagrado,
não pode ser manipulado nem possuído.
Aquele que age assim fracassará.
Aquele que quer se apoderar, perderá.
Pois na miríade de coisas,
há os que vão adiante e os que seguem atrás.
Há os que exalam para aquecer e os que sopram para esfriar.
Há os criativos e os receptivos.
Há os serenos e os agressivos.
Por isso homem santo evita o excesso, a ambição e o desejo de realização pessoal.
Deixe Ser
“Se você se determina a meditar, não será meditação. Se você se determina a ser bom, a bondade nunca florescerá. Se cultiva a humildade, ela deixa de existir. A meditação é a brisa que entra quando você deixa a janela aberta; mas se, deliberadamente, você a mantém aberta, deliberadamente a convida para entrar, ela nunca aparecerá.”
( Krishnamurti, The Only Revolution,37)
Capítulo 30
O governante que se orienta pelo Dao (Caminho)
Evita a utilização de forças agressivas abaixo do Céu.
Pois primar pela agressão leva ao revide.
No local onde um exército se estabelece, crescem sarças e espinhos.
Após grandes combates, seguirão anos penosos.
O bem é alcançar o propósito e parar.
Não se atrever a perseguir mais conquistas.
Alcançar o propósito e não se glorificar.
Alcançar o propósito e não se gabar.
Alcançar o propósito e não se orgulhar.
Alcançar o propósito e não se envaidecer.
Alcançar o propósito e descartar a força das armas.
As coisas em excesso não seguem o Dao e envelhecem.
Sem seguir o Dao logo perecem.
O Uso da Força
Usar a força agressiva pode levar à violência sem fim, já que como diz o primeiro parágrafo deste capitulo: primar pela força leva ao revide. O revide pode ser tão ou mais violento que a agressão inicial e provoca uma inversão da situação: aquele que agrediu passa a se defender e aquele que se defendeu passa a agredir, desencadeando um ciclo de violência.
Para que não seja necessário usar uma força agressiva é preciso evitar que se chegue à situação extrema que fez com que não houvesse outro jeito, senão fazer frente ao conflito. Atuando desde a sua raiz é possível prevenir que o desenvolvimento de uma situação chegue neste ponto.
É preciso ficar atento à origem da situação e atuar nos desequilíbrios iniciais, quando as coisas ainda são pequenas e simples e não cresceram e se complexificaram. Dar importância ao pequeno e simples significa não ter dificuldades no final.
“Não se esqueça da possibilidade do perigo em tempo de paz, não se esqueça da possibilidade de ruína em tempo de prosperidade, não se esqueça da possibilidade de caos em tempos de ordem”, diz o pensamento chinês. Ler os sinais de perversidade que ainda não se materializaram e agir preventivamente é, na cultura chinesa, uma sabedoria, é seguir o Dao.
A prevenção tem grande destaque na medicina tradicional chinesa: melhor do que curar uma gripe é evita-la, melhor do que extirpar um tumor é não o produzir. Assim, um médico de alto nível é aquele que não deixa a pessoa ficar doente, o médico de nível médio começa a tratar quando a doença já se manifestou e o médico comum trata o corpo quando a doença já se instalou.
O pensamento aplicado à saúde também serve para o caso da paz mundial. Nos conflitos entre as nações, quando feita com sabedoria, a diplomacia previne as guerras, porém quando falha, faz-se uso da força militar.
Assim, seja em um tratamento médico como numa guerra, os danos provocados pela força agressiva recaem sobre os que vencem, mas também sobre os vencidos. A reconstrução, dependendo da destruição, é penosa.
Há situações que são dadas, não foram provocadas ou causadas pelos envolvidos. Sem possibilidades de atuar na prevenção, o que se deve fazer? Não se deve agir com debilidade e sim com uma força eficaz que é governada pela serenidade, compaixão, moderação e humildade. Força que deixa de ser uma agressão porque sabe parar quando atingido o propósito.
A arte não está em usar a força. A arte está em como usar a força.
Alcançar o propósito e não se glorificar.
Alcançar o propósito e não se gabar.
Alcançar o propósito e não se orgulhar.
Alcançar o propósito e não se envaidecer.
Alcançar o propósito e descartar a força das armas.
Assim como os médicos da MTC, importantes estrategistas militares como Sun Zi, autor do clássico a Arte da Guerra, consideravam que a vida é a coisa mais importante, o bem maior, como mostra estes aforismos:
No mundo nada é mais precioso que o ser humano…Se lança ao combate só quando é inevitável. (Sun Zi, estrategista militar no período dos Reinos Combatentes).
A vida do homem é tão preciosa, vale mais do que mil moedas de ouro.
(Sun Simiao, médico da dinastia Tang)
Onde há amor não há desejo de poder, o poder predomina onde há falta de amor (Carl Jung).
Aquele que considera a vida um bem maior é bom e age com benevolência, seja ele um soldado ou um médico.
Capítulo 31
Armas são instrumentos nefastos;
todos as detestam.
Quem segue o Dao não as usa.
O homem nobre valoriza a esquerda,
mas na guerra valoriza o direito.
Armas são instrumentos nefastos,
não instrumentos do homem nobre.
Ele as usa apenas quando não pode evitá-las.
A serenidade é preferível.
Mesmo na vitória, não há beleza;
e quem acha bela a vitória,
se alegra em matar pessoas.
Aquele que se alegra em matar pessoas
não pode alcançar seu propósito sob o Céu.
Nos assuntos auspiciosos, o lado esquerdo é honrado;
nos inauspiciosos, o direito.
O general assistente fica à esquerda,
o general supremo à direita —
tal é o rito do luto.
Muitas mortes devem ser lamentadas com tristeza e dor;
a vitória deve ser celebrada com ritos fúnebres.
O Uso das Armas
Na China, o Leste fica à esquerda. Uma pessoa de lá (ou de algum outro lugar do hemisfério norte) que segue o sol no céu (ou se posiciona de forma a ficar de frente para a Linha do Equador), verá que o sol nasce à sua esquerda e se põe à sua direita.
Por isso, nas práticas corporais chinesas, aprendemos que o primeiro passo do movimento começa sempre pelo lado esquerdo, que é a direção da nascente naquele hemisfério.
No Brasil (ou no hemisfério sul) é ao contrário. Ao seguir o sol, a pessoa verá que ele nasce à sua direita e se põe à sua esquerda. Ou seja, aqui o Leste fica à direita.
Os que fazem as práticas aqui no hemisfério sul devem estar se perguntando agora: por que então no Ocidente a gente não começa a fazer as práticas pelo lado direito, que é onde o sol nasce aqui?
Porque a preferência dos chineses pela esquerda não se explica apenas pela orientação externa. Está dentro do corpo, onde também existe o lado da nascente (Leste) e do poente (Oeste), além, é claro, de um norte e um sul internos.
No mundo externo, cada uma dessas quatro direções corresponde a uma estação do ano. Do ponto de vista do hemisfério norte, onde o sol nasce, à Leste (esquerda), existe uma energia criativa yang muito forte. Por isso, na simbologia chinesa a energia do Leste é a primavera, a estação do nascimento dos seres. O Oeste (direita), por ser o lado do poente, representa a energia yin. Relaciona-se, portanto, com o outono, a estação do recolhimento. O Norte corresponde ao inverno, que é o lado escuro (mais longe da linha do Equador). E o Sul, o lado luminoso, voltado para o Equador, corresponde ao verão.
Dentro da gente, por sermos um microcosmos, à semelhança do macrocosmo, a energia de cada estação do ano se relaciona com a função de um determinado órgão. Cada um dos cinco órgãos em que se baseia a fisiologia (modo normal de funcionamento do corpo) na MTC vai nos orientar, portanto, a respeito de nossas direções internas.
A energia de criação da primavera (Leste) corresponde ao Fígado, que é do elemento madeira, e assemelha-se a uma árvore que nasce e se desdobra em direção ao Céu. A energia de amadurecimento e recolhimento do outono (Oeste) se assemelha ao movimento do Pulmão, que aglutina e descende para o fundo terra, como o elemento metal que lhe corresponde. A energia de crescimento luxuriante do verão (Sul) é associada à energia do Coração, do elemento fogo, que brilha e flameja num movimento ascendente em direção ao Céu. E, finalmente, o inverno (Norte), estação em que a energia se esconde na parte mais profunda da terra, corresponde à função do Rim, elemento Água, que desce para as profundezas do nosso corpo. O centro é o Baço, elemento terra, que integra todas essas estações.
Então temos em cada região do corpo uma estação do ano: primavera à esquerda, verão acima, outono à direita e inverno abaixo. Todas as quatro estações circulam em torno de um centro que possibilita a transformação de uma estação em outra de forma harmônica.
No aspecto energético, o Leste fica à esquerda, onde está o nascente, e é representado pela energia primaveril do Fígado (elemento madeira). Embora o órgão físico Fígado fique à direita, a energia dele ascende de forma proeminente pelo lado esquerdo. A energia outonal do Pulmão (elemento metal) desce pela direita em nosso corpo, e por isso é associada ao poente.
Por isso a preferência dos chineses de se começar as práticas corporais pelo lado criativo (yang), que fica à esquerda.
No capítulo 31 do Dao De Jing, vemos que o autor nos mostra que “ser um homem nobre é valorizar a esquerda”. E que “aqueles que usam os exércitos valorizam a direita”. Simbolicamente, valorizar a esquerda é colocar a energia da criação da Primavera acima de tudo. Valorizar a direita significa priorizar o declínio do Outono.
Na primavera, a energia criativa é farta. No outono, com a proximidade do inverno, os tempos começam a ficar mais escassos. O próprio elemento do outono, o metal, já traz a imagem do rigor.
É claro que não podemos interpretar o poema de forma a considerar o outono como algo nocivo. A energia do outono é igualmente necessária para a primavera existir, e vice-versa. Assim como é o equilíbrio do yin/yang.
Na época que Lao Zi escreveu esse poema, a China estava em constante guerra. O império estava totalmente fragmentado. Havia muita destruição, com a energia do outono em excesso, desequilibrando a harmonia entre criação e destruição.
Nas histórias antigas daquele tempo, vemos sempre o governante acompanhado por dois conselheiros, sendo que um ficava à esquerda e outro à direita.
O conselheiro da esquerda tratava de assuntos favoráveis, e o conselheiro da direita, lidava com assuntos fúnebres. A escolha dessas posições (direita para assuntos fúnebres e esquerda para assuntos favoráveis) tem a ver com o que explicamos acima, a respeito das energias das respectivas direções.
Em épocas de guerra, o conselheiro da direita tinha papel mais importante do que o da esquerda. Mas quem decidia mesmo era sempre o homem nobre de quem fala o poema: o governante, que ocupa o lugar central.
Para ser um governante nobre, de fato, é necessário estar consciente de que “vencer não é bonito”, como é dito nesse poema de número 31.
Um homem nobre age com serenidade para considerar as falas, tanto do conselheiro da direita, quanto da esquerda. Só então depois ele decide por ações pacificadoras, que colocam “a paz e calma acima de tudo”, como também é dito pelo autor.
No âmbito interno, assim como temos as quatro direções, também temos um governante dentro da gente, que ocupa o lugar mais alto no nosso organismo e abriga a consciência. Na MTC, esse governante é o Coração, considerado o imperador do império.
Com um Coração sereno tudo poderá ser ordenado. Não haverá excesso e nem escassez, as funções dos órgãos sob a sua influência não saem dos limites e se relacionam entre si de forma harmoniosa.
Conhecendo os sopros internos, tanto de pacificação, como de criação ou destruição (e, principalmente, quando se consegue harmonizar os sopros), teremos uma energia equilibrada. Enquanto não se conhece a própria natureza interna, é muito mais difícil se orientar ou reconhecer as direções externas.
Capítulo 32
O Dao, eterno, não tem nome.
Singelo e intangível não é subserviente a nada no mundo.
Se o soberano souber mantê-lo,
A miríade de coisas seguiria por si.
O Céu e a Terra se uniriam,
e fariam cair um doce orvalho.
O povo, sem que se dê ordens,
por si mesmo se ordenaria.
Quando surge a diversificação, surgem os nomes.
Com os nomes, criam-se existências.
Então deve-se saber parar.
Saber parar evita o perigo.
O Dao no mundo é como os rios e os oceanos
para onde fluem as correntes de água dos vales
Saber Parar
O Dao, infinito e onipresente, é comum e natural. Mesmo sendo de uma simplicidade suprema, nada o controla ou o submete. Ele é a matriz da criação das coisas do universo. Intangível, tudo nasce e retorna ao seu seio e por isso não é possível nomeá-lo, já que dar um nome é tornar finito o que é eterno.
O soberano é aquele que tem o poder de manter o Dao, promovendo a união do Céu com a Terra de forma que todos os seres sigam harmoniosamente por si mesmos. De acordo com os mestres do Dao, as pessoas soberanas não foram sempre as mesmas e se alternaram ao longo das Eras.
Na China, durante as três dinastias da antiguidade – Xia, Shang e Zhou – os Imperadores eram os soberanos que mantinham a harmonia na Terra através dos ritos, das músicas e das virtudes. Eram considerados os Filhos do Céu. Esta foi a Era Verde, associada aos tempos primevos.
Quando os Imperadores começaram a subverter a harmonia, corrompendo e se desviando do Dao, a soberania se transferiu para sábios e santos, mestres espirituais que acumularam muitos méritos. Eram Laozi, Confúcio, Buda, Jesus, entre muitos outros. Esta foi a Era Vermelha, associada ao espírito de desenvolvimento do verão.
Atualmente, herdamos o vasto legado destes mestres espirituais. Independente de raça, cor e aparência, todo aquele que tem um Coração singelo e puro é um soberano que mantém o Dao. O Coração, de acordo com a medicina tradicional chinesa, é o imperador que governa o Ser, a morada do espírito que irradia a luz. Estamos então na Era Branca, que marca o espírito outonal de colheita e distribuição.
No entanto, quando há uma profusão de coisas é necessário saber parar e separar o “joio do trigo” pois é grande o risco da fragmentação e dispersão.
Como está dito neste poema:
Quando surge a diversificação, surgem os nomes.
Com os nomes criam-se existências.
Então deve-se saber parar.
Saber parar evita o perigo.
Segue-se a esta Era de exuberância e colheita, a Era escura do recolhimento e do retorno. O perigo é o de não saber parar e retornar. O Ser deve retornar ao Não Ser, o que foi criado deve retornar à matriz que o criou. Assim como as águas dos vales retornam aos rios e oceanos.
O Dao no mundo é como os rios e os oceanos,
para onde fluem as correntes de água dos vales.
Capítulo 33
Quem conhece os outros tem sabedoria,
Quem conhece a si mesmo tem luz.
Quem vence os outros tem força,
Quem vence a si mesmo tem poder.
Quem sabe contentar-se é rico.
Quem segue o seu caminho, conhece seu destino.
Quem não perde sua raiz, perdura.
Quem mesmo na morte não perece, tem vida eterna.
Conhecer a Si Mesmo
O conhecimento de si mesmo, nesta vida, pode diminuir, estagnar ou crescer.
Depende se aproveitamos a nossa jornada na Terra para ampliar o nosso autoconhecimento, ou a desperdiçamos vivendo uma vida sem clareza nem significado.
A vida não é previsível, não dá para ser planejado, calculado ou mesmo desejado. Os acontecimentos fluem e se apresentam de acordo com o caminho a ser trilhado por cada um. O novo, que é desconhecido, sempre surge à nossa frente e podemos ter a atitude de evita-lo ou reconhece-lo como algo que corresponde e aprender com ele, ampliando o nosso autoconhecimento.
O autoconhecimento nos possibilita ter a empatia que, além de nos dar a condição de compreender os outro, nos ensina a compreender melhor a nós mesmos.
Conhecer a força harmonizadora do amor que confere o poder de transformar uma situação conflituosa sem utilizar da força física.
Saber de nossas possibilidades e impossibilidades nos traz satisfação em tudo que fazemos e nos livra da ambição e inveja.
Saber da raiz, de nosso lugar no universo, é conservar a luz para uma vida eterna.
Capítulo 34
O grande Dao permeia a tudo, está à esquerda e à direita.
Todos os seres dependem dele para viver e ele não os abandona.
Ele realiza a sua missão em silencio, não faz alarde.
Veste e alimenta as dez mil coisas, mas não se considera o seu senhor.
Sem desejos, pode ser renomado, mas se considera pequeno.
As dez mil coisas lhe pertencem, mas ele não as submete.
Reconhecido como grande, não se considera grande.
E por isso pode realizar sua grandeza.
O Caminho é Grandioso
Em uma história zen, um peixinho perguntava o que é o mar a um peixe mais velho. “É tudo o que nos cerca”, respondia o mais velho. O peixinho embora estivesse imerso naquela imensidão azul, não conseguia enxergar o mar, “porque não posso vê-lo?”, perguntava o peixinho.
A história continua com a imagem de uma criança que fazia perguntas a um ancião. Mas em vez do mar, ela queria saber a respeito do Dao: “o que é o Dao?”. O ancião então respondia: “É tudo o que nos cerca”. E a mesma dúvida aparecia na criança: “porque não posso vê-lo”?
O sopro vital envolve os seres assim como o mar envolve os peixes. Qi é o sopro de vida que flui conectando e interrelacionando a miríade de coisas internamente e externamente. O qi une os opostos à direita e à esquerda e liga acima e abaixo. O Dao (Caminho) pode ser pequeno e estreito na sua forma, porém é grandioso e inesgotável em suas possibilidades. O nosso corpo de qi pode ser invisível, imperceptível e facilmente esquecido, mas não nos abandona, pois, nossa vida depende dele.
Capítulo 35
Quando se tem a imagem do Dao no Coração,
Tudo abaixo do Céu segue.
Segue sem danos, segue em paz e harmonia.
Música e iguarias seduzem e detêm o viajante.
Mas o Dao parece insosso e sem sabor.
Ao olhá-lo, não se pode vê-lo.
Ao escutá-lo, não se pode ouvi-lo.
Ao usá-lo, não se consegue esgotá-lo.
A Imagem do Dao (Caminho)
As imagens e os símbolos são a linguagem do Coração.
Desde os primórdios, os chineses utilizaram-se de desenhos, símbolos e pictogramas para se comunicar. A escrita da língua chinesa desenvolveu-se paulatinamente ao longo do tempo passando de desenhos por vezes indistintos, até chegar aos ideogramas atuais altamente objetivos e estilizados.
Os ideogramas chineses conseguem transmitir em sua totalidade profunda desde as coisas mais comuns e concretas até a ideias mais sutis, aquelas que são indizíveis por simples palavras.
Quanto a mim, toda vez que vou fazer uma prática, uma imagem emerge no meu Coração:
Um longo caminho se estende à minha frente, não vislumbro um lugar a se chegar, estou só. Começo a caminhada, e ao andar me dou conta de que cada passo é uma chegada e cada passo é também uma partida.
Capítulo 36
O que está em vias de contrair,
Deve ter se expandido
O que está em vias de enfraquecer,
Deve ter se fortalecido
O que está em vias de decair,
Deve ter florescido
O que está em vias de obter,
Deve haver doado.
Isso é ter visão clara.
O flexível vence o rígido, o firme vence o forte.
Assim como os peixes não devem abandonar a profundidade das águas,
As armas refinadas do reino não devem ser expostas.
Mutações, Peixes e Armas Refinadas
“Quando algo está no ápice, se transforma em seu oposto”. Esta é uma lei que rege as constantes mutações do Yin/Yang e mantém a vida no Universo.
Na natureza, ela é auto evidente. Podemos observá-la nas fases da lua, por exemplo: ao chegar em sua plenitude, a lua entra na fase minguante e depois da lua nova surge a fase crescente. Um outro caso é o das estações do ano: após a escassez no inverno, vem a fartura da primavera e após o florescimento do verão, vem o recolhimento do outono.
Atingir o ponto de mutação e então renovar é seguir o fluxo natural, quando os acontecimentos fluem sem desgaste.
Na prática das artes corporais chinesas, as mutações dos movimentos são fundamentais para circulação do Sangue e dos Sopros (qi). No entanto, quando os movimentos se projetam para além ou ficam aquém da sua plenitude, perde-se o momento certo para a mutação e o resultado não é benéfico.
Quando isso acontece, os mestres das artes corporais costumam advertir que o movimento não chegou no seu lugar, sendo “lugar” o ponto de mutação natural onde um novo movimento se inicia. O praticante que executa seus movimentos mecanicamente, sem clareza do que está fazendo é aquele que mais comete esta falta.
Treinar com consciência e perseverança, eleva o nível da prática que realizamos. Além da mutação, a fusão dos opostos confere uma qualidade duradoura para a prática, mas também para a vida do praticante. Dizem os mestres das artes corporais que é necessário mil marteladas e centenas de refinações para forjar esta qualidade.
A qualidade da flexibilidade resulta da fusão do fraco com o forte e a qualidade da firmeza ocorre da fusão do suave com o rígido. A flexibilidade transcende e harmoniza o fraco e o forte, limitando os excessos do uso da força no forte e possibilitando o uso eficaz da força existente no fraco. A firmeza transcende e harmoniza o rígido e o suave, tornando o rígido maleável e o suave penetrante.
As duas linhas finais do capítulo são metafóricas:
Na primeira, “Assim como os peixes não devem abandonar a profundidade das águas”, a palavra de destaque é “peixe”, cuja pronúncia em chinês (yú) tem o mesmo som de “sobra, a mais, excedente”. Essa semelhança fonética levou o peixe a se tornar um símbolo de prosperidade, de abundância na China. No contexto do poema, podemos entender que ele simboliza a vitalidade que está na profundidade das águas (região do baixo ventre onde se localiza o órgão do Rim do elemento Água). Assim, a vitalidade que sobra, que excede, não deve ser desperdiçada, e sim mantida na região do Rim.
Na segunda, “As armas refinadas do reino não devem ser expostas”, a referência é o Órgão do Pulmão, cujo elemento é o Metal. Uma de suas funções é o de aglutinar a essência dos alimentos terrestres recebidos do Órgão Baço e a essência do alimento celeste assimilado pelo nariz e pela pele, produzindo os sopros de defesa que difunde para todo corpo. As armas refinadas podem ser associadas por metáfora ao sopro defensivo elaborado pelo Pulmão que tem como objetivo proteger o reino e que não deve ser exposto.
Capítulo 37
O Dao é não ação
E nada há que não seja feito.
Se o Coração que governa pudesse preservar o Dao,
todas as coisas evoluiriam naturalmente por si mesmas.
Se, ao evoluir, desejos de ação são gerados,
retorne ao que é simples e sem nome.
O simples e sem nome evolui sem desejo.
Sem desejo tem se tranquilidade.
A miríade de coisas estará em paz e estáveis.
Não ação, simples e sem nome
Sem fazer nada, a primavera chega e as sementes nascem.
Da mesma forma como acontece na natureza, no seu Coração as respostas para as questões brotarão no tempo certo. Como se fossem sementes, plante no seu Coração as perguntas que o instigam e cuide delas. As respostas aparecerão quando você estiver pronto para vivê-las. Como dizem os sábios chineses, quando o discípulo está pronto, o mestre aparece. Pode-se dizer também que quando o mestre está pronto, o discípulo aparece.
Plantamos as sementes do porvir no Coração pois ele governa a miríade de coisas no nosso Ser. Quando o espírito luminoso emanado pelo Dao (Caminho) nele habita e é preservado, tudo evolui naturalmente por si mesmos: o corpo físico executa as ações adequadas, o corpo de qi faz fluir o sopro e o sangue e o corpo mental faz reflexões de forma consciente.
Para preservar o Dao, o Coração deve sempre retornar ao que é simples e sem nome. No entanto, os desejos provenientes do corpo físico têm nome e a turbidez das emoções e reflexões perdem a clareza da simplicidade.
O Coração nada faz. Não controla, não toma posse, não tem desejos…simplesmente contempla e sob o seu olhar não há nada que não seja feito.