A suprema virtude da abertura é revelada quando se segue o Dao.
O Dao é como um sonho, difuso, vago e fugidio.
Vago e fugidio! No seu interior tem imagem.
Vago e fugidio! No seu interior tem forma.
Profundidade turva e obscura! No seu interior existe essência refinada.
No interior dessa essência genuína, reside a natureza original.
Desde a antiguidade até hoje, seu nome, sempre lembrado,
rege o surgimento e desaparecimento dos seres.
Como posso saber da origem da criação?
De acordo com isso.
Há uma atmosfera de grande virtude nas aberturas, orifícios, brechas; por onde podemos entrever outra dimensão das coisas. Uma “abertura” é um acontecimento no plano do invisível e sutil.
Mircea Eliade (1907-1986), filósofo e historiador das religiões, diz em seu livro O Sagrado e o Profano[1]
Quando o sagrado se manifesta por uma hierofania qualquer, não só há rotura na homogeneidade do espaço, como também revelação de uma realidade absoluta, que se opõe à não realidade da imensa extensão envolvente.
Na natureza encontramos exemplos de aberturas, roturas que rompem a mesmice do espaço, como: um oásis no deserto, uma gruta em uma montanha maciça, os espaços por entre os galhos de uma copa de árvore etc. Nos seres humanos uma abertura pode se dar no fluxo compulsivo dos pensamentos, ou nos hábitos emocionais, físicos ou mentais rompendo um ciclo vicioso.
Além disso, no espaço físico de nosso corpo existem infinitas aberturas por onde o interno se comunica com o externo. A medicina tradicional chinesa ao longo de milênios mapeou 365 orifícios pertencentes aos meridianos que fluem no corpo, espalhados pela sua superfície. Conhecidos como “pontos de acupuntura” no ocidente, eles recebem o nome de qi qiao (orifício ou abertura do qi) na literatura médica chinesa. Além de serem as referências para as rotas de circulação do qi e do sangue, esses orifícios, invisíveis, refletem as mutações fisiológicas e patológicas internas e transmitem os estímulos externos para o interno. A troca de qi entre o corpo humano e a natureza é efetuada por seu intermédio.
A suprema virtude da abertura é revelada quando se segue o Dao.
Para seguir o Dao é preciso um Coração vazio. Um Coração que não seja preenchido pelas coisas e sim um Coração, que estando vazio, possa envolver e abranger todas as coisas. Ser preenchido leva ao apego, ser abrangente é ter consciência sem tomar posse.
Esse Coração abrangente possui um olhar abrangente, amplo. Vê através de um olho especial e oculto: o terceiro olho. Esse olho está no centro do cérebro, na região da glândula pineal, um pequeno ventrículo bem no meio da cabeça. A sua abertura fica na fronte acima do ponto médio entre as sobrancelhas, no meio dos dois olhos físicos. Na acupuntura este local é chamado de Tianmu (Olho Celeste) um qi qiao (acuponto) que é extra, por não pertencer a nenhum meridiano.
O Dao é como um sonho, difuso, vago e fugidio.
Vago e fugidio! No seu interior tem imagem.
Vago e fugidio! No seu interior tem forma.
Profundidade turva e obscura! No seu interior existe essência refinada.
No interior dessa essência genuína, reside a natureza original.
O mundo interno do ser humano é vago e fugidio como o Dao. Somente através do brilho do olhar do Tianmu, é possível vislumbrar as paisagens internas. Como uma abertura no céu, sua luz é capaz de penetrar e iluminar, dentro da escuridão do baixo ventre, a essência que resplandece na profundidade turva e escura. Cultivar um Coração vazio, abrir o Tianmu e integrar corpo, alma e espírito no interno e ser humano e natureza no externo. Tudo num só olhar.