Armas são instrumentos nefastos;
todos as detestam.
Quem segue o Dao não as usa.
O homem nobre valoriza a esquerda,
mas na guerra valoriza o direito.
Armas são instrumentos nefastos,
não instrumentos do homem nobre.
Ele as usa apenas quando não pode evitá-las.
A serenidade é preferível.
Mesmo na vitória, não há beleza;
e quem acha bela a vitória,
se alegra em matar pessoas.
Aquele que se alegra em matar pessoas
não pode alcançar seu propósito sob o Céu.
Nos assuntos auspiciosos, o lado esquerdo é honrado;
nos inauspiciosos, o direito.
O general assistente fica à esquerda,
o general supremo à direita —
tal é o rito do luto.
Muitas mortes devem ser lamentadas com tristeza e dor;
a vitória deve ser celebrada com ritos fúnebres.
Na China, o Leste fica à esquerda. Uma pessoa de lá (ou de algum outro lugar do hemisfério norte) que segue o sol no céu (ou se posiciona de forma a ficar de frente para a Linha do Equador), verá que o sol nasce à sua esquerda e se põe à sua direita.
Por isso, nas práticas corporais chinesas, aprendemos que o primeiro passo do movimento começa sempre pelo lado esquerdo, que é a direção da nascente naquele hemisfério.
No Brasil (ou no hemisfério sul) é ao contrário. Ao seguir o sol, a pessoa verá que ele nasce à sua direita e se põe à sua esquerda. Ou seja, aqui o Leste fica à direita.
Os que fazem as práticas aqui no hemisfério sul devem estar se perguntando agora: por que então no Ocidente a gente não começa a fazer as práticas pelo lado direito, que é onde o sol nasce aqui?
Porque a preferência dos chineses pela esquerda não se explica apenas pela orientação externa. Está dentro do corpo, onde também existe o lado da nascente (Leste) e do poente (Oeste), além, é claro, de um norte e um sul internos.
No mundo externo, cada uma dessas quatro direções corresponde a uma estação do ano. Do ponto de vista do hemisfério norte, onde o sol nasce, à Leste (esquerda), existe uma energia criativa yang muito forte. Por isso, na simbologia chinesa a energia do Leste é a primavera, a estação do nascimento dos seres. O Oeste (direita), por ser o lado do poente, representa a energia yin. Relaciona-se, portanto, com o outono, a estação do recolhimento. O Norte corresponde ao inverno, que é o lado escuro (mais longe da linha do Equador). E o Sul, o lado luminoso, voltado para o Equador, corresponde ao verão.
Dentro da gente, por sermos um microcosmos, à semelhança do macrocosmo, a energia de cada estação do ano se relaciona com a função de um determinado órgão. Cada um dos cinco órgãos em que se baseia a fisiologia (modo normal de funcionamento do corpo) na MTC vai nos orientar, portanto, a respeito de nossas direções internas.
A energia de criação da primavera (Leste) corresponde ao Fígado, que é do elemento madeira, e assemelha-se a uma árvore que nasce e se desdobra em direção ao Céu. A energia de amadurecimento e recolhimento do outono (Oeste) se assemelha ao movimento do Pulmão, que aglutina e descende para o fundo terra, como o elemento metal que lhe corresponde. A energia de crescimento luxuriante do verão (Sul) é associada à energia do Coração, do elemento fogo, que brilha e flameja num movimento ascendente em direção ao Céu. E, finalmente, o inverno (Norte), estação em que a energia se esconde na parte mais profunda da terra, corresponde à função do Rim, elemento Água, que desce para as profundezas do nosso corpo. O centro é o Baço, elemento terra, que integra todas essas estações.
Então temos em cada região do corpo uma estação do ano: primavera à esquerda, verão acima, outono à direita e inverno abaixo. Todas as quatro estações circulam em torno de um centro que possibilita a transformação de uma estação em outra de forma harmônica.
No aspecto energético, o Leste fica à esquerda, onde está o nascente, e é representado pela energia primaveril do Fígado (elemento madeira). Embora o órgão físico Fígado fique à direita, a energia dele ascende de forma proeminente pelo lado esquerdo. A energia outonal do Pulmão (elemento metal) desce pela direita em nosso corpo, e por isso é associada ao poente.
Por isso a preferência dos chineses de se começar as práticas corporais pelo lado criativo (yang), que fica à esquerda.
No capítulo 31 do Dao De Jing, vemos que o autor nos mostra que “ser um homem nobre é valorizar a esquerda”. E que “aqueles que usam os exércitos valorizam a direita”. Simbolicamente, valorizar a esquerda é colocar a energia da criação da Primavera acima de tudo. Valorizar a direita significa priorizar o declínio do Outono.
Na primavera, a energia criativa é farta. No outono, com a proximidade do inverno, os tempos começam a ficar mais escassos. O próprio elemento do outono, o metal, já traz a imagem do rigor.
É claro que não podemos interpretar o poema de forma a considerar o outono como algo nocivo. A energia do outono é igualmente necessária para a primavera existir, e vice-versa. Assim como é o equilíbrio do yin/yang.
Na época que Lao Zi escreveu esse poema, a China estava em constante guerra. O império estava totalmente fragmentado. Havia muita destruição, com a energia do outono em excesso, desequilibrando a harmonia entre criação e destruição.
Nas histórias antigas daquele tempo, vemos sempre o governante acompanhado por dois conselheiros, sendo que um ficava à esquerda e outro à direita.
O conselheiro da esquerda tratava de assuntos favoráveis, e o conselheiro da direita, lidava com assuntos fúnebres. A escolha dessas posições (direita para assuntos fúnebres e esquerda para assuntos favoráveis) tem a ver com o que explicamos acima, a respeito das energias das respectivas direções.
Em épocas de guerra, o conselheiro da direita tinha papel mais importante do que o da esquerda. Mas quem decidia mesmo era sempre o homem nobre de quem fala o poema: o governante, que ocupa o lugar central.
Para ser um governante nobre, de fato, é necessário estar consciente de que “vencer não é bonito”, como é dito nesse poema de número 31.
Um homem nobre age com serenidade para considerar as falas, tanto do conselheiro da direita, quanto da esquerda. Só então depois ele decide por ações pacificadoras, que colocam “a paz e calma acima de tudo”, como também é dito pelo autor.
No âmbito interno, assim como temos as quatro direções, também temos um governante dentro da gente, que ocupa o lugar mais alto no nosso organismo e abriga a consciência. Na MTC, esse governante é o Coração, considerado o imperador do império.
Com um Coração sereno tudo poderá ser ordenado. Não haverá excesso e nem escassez, as funções dos órgãos sob a sua influência não saem dos limites e se relacionam entre si de forma harmoniosa. Conhecendo os sopros internos, tanto de pacificação, como de criação ou destruição (e, principalmente, quando se consegue harmonizar os sopros), teremos uma energia equilibrada. Enquanto não se conhece a própria natureza interna, é muito mais difícil se orientar ou reconhecer as direções externas.