O pesado é a raiz do leve
O quieto é o senhor do inquieto
Portanto o sábio em sua marcha diária,
não perde de vista a sua bagagem.
Ele permanece leve e desapegado,
mesmo que haja coisas deslumbrantes para se ver.
Como pode o dono de muitos recursos,
agir levianamente ante ao mundo?
Ser leviano perde a raiz.
Ficar agitado perde o governo.
O pesado é a raiz do leve
O quieto é o senhor do inquieto.
Podemos observar estas palavras na natureza: a terra sólida e estável permite a leveza dos movimentos das plantas, das águas e dos seres que nela se enraízam e se elevam para o céu.
Fazendo uma analogia com a natureza humana, o corpo físico é “pesado” e o espírito é “leve”. Às vezes, na busca de espiritualidade, consideramos o corpo físico um fardo que nos atrapalha e tendemos a ignorá-lo. No entanto, isto é um equivoco, pois o corpo abriga o espírito, por isso durante a nossa jornada, na terra, não podemos perder o nosso corpo de vista. Quando cuidamos devidamente do nosso corpo, o espírito tem onde se enraizar. Sem o corpo como substrato sólido e estável, o espírito não tem como se enraizar, fica inquieto, agitado e vai embora, e na ausência dele o corpo fica muito mais pesado.
Também na medicina tradicional chinesa o “pesado” e o “leve” interagem e se complementam como o yin/yang. O “pesado” se dissolve através de um movimento yang ascendente. O leve se condensa através de um movimento yin descendente.
No nosso corpo, de forma geral, as funções dos órgãos localizados abaixo do diafragma (Baço, Rim e Fígado) são os responsáveis por produzir e transformar a essência (inata e adquirida) e a fazer chegar às regiões superiores em um movimento ascendente. Na região superior, os órgãos acima do diafragma (Coração, Pericárdio e Pulmão) são os responsáveis de receber essa essência pura que ascendeu para condensá-la com o ar celeste respirado e difundi-la para todos os órgãos e vísceras abaixo deles, em um movimento descendente. O movimento de “dissolver e ascender” e “condensar e descender” parece ser simples, mas não é, devido a outros tipos de energias que vem do externo e pode afetar esta movimentação. Isto depende não só da qualidade do que vem do externo, mas também da nossa capacidade em assimilá-los e transformá-los em energias sutis que possam alimentar e cultivar o espírito. Para isso devemos ficar desapegados e não nos projetar nos acontecimentos externos. Dessa forma, o mundo externo não perde a sua abundância nem a riqueza de impressões e sons, porém deixa de nos dominar e, então, passamos a poder contemplá-la.
Os sábios como Laozi, mestres enraizados nos seus conhecimentos, são pessoas simples e naturais, e por isso, agem com leveza; a responsabilidade não lhes pesa.