O Céu é eterno e a Terra é duradoura.
Porque Céu e Terra podem ser eternos e duradouros?
Porque eles não vivem só para si.
Por isso são longevos.
O sábio se coloca por último e mesmo assim lidera.
Renuncia a própria vida e mesmo assim a conserva.
Não quer nada para si e mesmo assim se realiza.
Quando criança, se a gente fazia uma travessura, a repreensão de meu pai era um forte cutucão na testa, entre os olhos, e a frase dita num tom grave: “san tian”, que quer dizer em chinês: “você está ferindo o Céu”. A sensação do cutucão permanecia presente por longo tempo na minha testa, e me levava ao sentimento de que as minhas ações podiam repercutir até no céu, e que uma má ação minha podia deixar o céu triste. Isto desenvolveu em mim uma consciência de que pertenço à algo maior, não sou separada de nada que me rodeia.
Essa sensação de pertencimento é muito importante, confere um significado à existência. Se me separo do todo ao qual pertenço, sou levada à sensação de desenraizamento e solidão.
Laozi diz neste capítulo que pelo fato do Céu e Terra não viverem só para si os torna longevos. A longevidade não é da matéria, que é efêmera, mas sim da alma e do espírito, que existem eternamente mesmo sem a forma física da matéria.
Pertencer ao todo é colocar por último os nossos desejos e vontades, é ser humilde. É ser liderado pelos aspectos superiores da alma e do espírito. Assim tudo que se faz e como se faz não é só para si e sim para o todo.